Narradores de Javé impressionou-me positivamente. É um filme que eu recomendo a todos. É divertido, interessante e seus atores representam muito bem. É imperdível.
O drama trata de um povoado fictício, Javé, que estava prestes a desaparecer devido a construção de uma hidrelétrica, que representava a chegada do progresso, da modernidade, àquela região. Para mudar esta triste realidade, o povo de Javé decidiu escrever a sua história, para que sua terra fosse reconhecida como patrimônio histórico e preservada do desaparecimento. Naquele lugar esavam suas lembranças, suas esperanças e seus antepassados. Estes, enterrados sob aquele chão. Como poderiam ficar enterrados e submersos nas águas? E o povo para onde iria? O que fariam? O povo confrontou-se com a dura realidade. Deveria lutar pelo seu espaço, pela história de suas vidas. E para isso não bastava a história contada oralmente, precisavam de uma história registrada no papel.
A única pessoa alfabetizada de Javé era Antônio Biá. Ele foi incumbido de recuperar e registrar a história daquele povoado no papel, cientificamente. E deveria realizar tais registros a partir das memórias dos seu moradores, os narradores da história. O Vale de Javé precisava, através da oralidade, das “lembranças javélicas” , reconstruir sua história que poderia garantir o futuro, tão incerto. Evidencia-se aqui a importância da cultura letrada sobre a oralidade do povo. O registro escrito toma tal importância que a história do povoado somente seria reconhecida se estivesse legitimado pela escrita. Caso isso não acontecesse o aniquilamento seria certo.
Antônio Biá passa, então, a escutar os moradores, o que eles sabiam e o que lhes havia sido passado de geração em geração. A cada narração que ouvia, Biá descobria uma nova história e, a ela, cada pessoa atribuía sentido diferente, conforme a sua visão, aquilo em que acreditava, o que havia ouvido. O modo de ser e de pensar dos moradores, sua vivência, sua cultura ficava evidenciado. Isso gerou muita confusão entre eles e Biá já não sabia o que registrar, pois para cada morador a sua história era a verídica.
É possível notar que a comunidade de Javé não era alfabetizada, mas letrada e produtora de uma linguagem própria, que faz a graça na oralidade. Exemplo disso é a própria casa de Biá, cujas paredes são escritas com ditos e frases como “aqui mora um intelectual alcoólatra”.Na porta da sua casa havia outra frase:”Proibido entrada de analfabeto” Lembremos também do outdoor da hidrelétrica, que põe o povo em polvorosa e da placa do barbeiro sob a árvore. Mas infelizmente, esse letramento não foi reconhecido, as palavras ditas passaram como o vento, a história não foi registrada e Javé sucumbiu. É o poder da palavra escrita! Mas para ser escrita a mesma palavra passou pela oralidade. Não poderia o contar, o argumento, daquele povo ser reconhecido como legítimo, uma vez que representa a história e a verdade de cada um?segunda-feira, 7 de setembro de 2009
"NARRADORES DE JAVÉ": contribuindo para o meu saber
Narradores de Javé impressionou-me positivamente. É um filme que eu recomendo a todos. É divertido, interessante e seus atores representam muito bem. É imperdível.
O drama trata de um povoado fictício, Javé, que estava prestes a desaparecer devido a construção de uma hidrelétrica, que representava a chegada do progresso, da modernidade, àquela região. Para mudar esta triste realidade, o povo de Javé decidiu escrever a sua história, para que sua terra fosse reconhecida como patrimônio histórico e preservada do desaparecimento. Naquele lugar esavam suas lembranças, suas esperanças e seus antepassados. Estes, enterrados sob aquele chão. Como poderiam ficar enterrados e submersos nas águas? E o povo para onde iria? O que fariam? O povo confrontou-se com a dura realidade. Deveria lutar pelo seu espaço, pela história de suas vidas. E para isso não bastava a história contada oralmente, precisavam de uma história registrada no papel.
A única pessoa alfabetizada de Javé era Antônio Biá. Ele foi incumbido de recuperar e registrar a história daquele povoado no papel, cientificamente. E deveria realizar tais registros a partir das memórias dos seu moradores, os narradores da história. O Vale de Javé precisava, através da oralidade, das “lembranças javélicas” , reconstruir sua história que poderia garantir o futuro, tão incerto. Evidencia-se aqui a importância da cultura letrada sobre a oralidade do povo. O registro escrito toma tal importância que a história do povoado somente seria reconhecida se estivesse legitimado pela escrita. Caso isso não acontecesse o aniquilamento seria certo.
Antônio Biá passa, então, a escutar os moradores, o que eles sabiam e o que lhes havia sido passado de geração em geração. A cada narração que ouvia, Biá descobria uma nova história e, a ela, cada pessoa atribuía sentido diferente, conforme a sua visão, aquilo em que acreditava, o que havia ouvido. O modo de ser e de pensar dos moradores, sua vivência, sua cultura ficava evidenciado. Isso gerou muita confusão entre eles e Biá já não sabia o que registrar, pois para cada morador a sua história era a verídica.
É possível notar que a comunidade de Javé não era alfabetizada, mas letrada e produtora de uma linguagem própria, que faz a graça na oralidade. Exemplo disso é a própria casa de Biá, cujas paredes são escritas com ditos e frases como “aqui mora um intelectual alcoólatra”.Na porta da sua casa havia outra frase:”Proibido entrada de analfabeto” Lembremos também do outdoor da hidrelétrica, que põe o povo em polvorosa e da placa do barbeiro sob a árvore. Mas infelizmente, esse letramento não foi reconhecido, as palavras ditas passaram como o vento, a história não foi registrada e Javé sucumbiu. É o poder da palavra escrita! Mas para ser escrita a mesma palavra passou pela oralidade. Não poderia o contar, o argumento, daquele povo ser reconhecido como legítimo, uma vez que representa a história e a verdade de cada um?
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário